Muita gente ainda pensa em agosto como “meio de ano”, mas para quem administra uma empresa esse mês já marca o início da reta final. Faltam cinco meses para o encerramento do exercício, e é justamente nesse período que se concentram as decisões mais importantes de planejamento tributário, os prazos trabalhistas mais pesados no caixa e, em 2026, uma série de novidades da Reforma Tributária que exigem atenção redobrada. Quem espera novembro para organizar o 13º salário ou dezembro para pensar no Imposto de Renda da empresa costuma pagar mais caro, literalmente.
Por Que Agosto Já É a Reta Final do Ano para o Empresário
O segundo semestre concentra praticamente todas as obrigações que impactam o fechamento do exercício: provisionamento e pagamento do 13º salário, ajuste das projeções de faturamento para decidir o regime tributário do próximo ano, eventual distribuição de lucros e dividendos aos sócios, pagamento de participação nos lucros e resultados (PLR) e, em 2026, a janela de opção do Simples Nacional para o novo modelo de tributação sobre o consumo.
Como a maioria dessas decisões tem prazo fixo e não pode ser antecipada nem adiada, o empresário que só se organiza em dezembro perde a chance de planejar e acaba apenas reagindo às obrigações.
O Que Precisa Estar Organizado Até Dezembro
Obrigações Fiscais
Empresas do Lucro Presumido e do Lucro Real precisam revisar as projeções de faturamento do ano para confirmar se o enquadramento tributário atual continua sendo o mais vantajoso para 2027. Também é o momento de avaliar despesas dedutíveis, antecipar investimentos que façam sentido para o negócio e organizar a apuração do IBS e da CBS, que desde 2026 já aparecem na apuração de forma simbólica para quem está fora do Simples Nacional.
Obrigações Trabalhistas e Previdenciárias
O 13º salário é a obrigação trabalhista mais pesada do segundo semestre. Pela legislação, a primeira parcela deve ser paga até 30 de novembro e a segunda até 20 de dezembro, data em que também vencem o recolhimento do INSS e o eventual IRRF sobre o benefício. Além disso, é preciso manter o eSocial atualizado, já que os eventos de remuneração e os cálculos de encargos sobre o 13º e sobre eventual PLR são processados diretamente pela plataforma.
⚠️ Empresas que deixam para calcular o 13º salário apenas em novembro costumam enfrentar problemas de caixa, já que o valor costuma ser um dos maiores desembolsos do ano.
Como Antecipar o Planejamento do 13º Salário
Antecipar esse planejamento significa simular agora, com a folha de pagamento atual, quanto será o desembolso de novembro e dezembro, considerando também os encargos previdenciários. Essa simulação evita surpresas de fluxo de caixa e permite negociar prazos com fornecedores ou linhas de crédito com antecedência, caso necessário.
Vale lembrar que a Lei nº 15.270/2025 alterou a tabela de retenção do Imposto de Renda incidente sobre os rendimentos mensais, e essa mesma redução se aplica ao imposto retido exclusivamente na fonte sobre o 13º salário. Na prática, funcionários com remuneração mensal de até R$ 5.000 tendem a ter o imposto sobre o 13º reduzido a zero, e quem recebe entre R$ 5.000,01 e R$ 7.350 tem redução proporcional. Isso impacta o cálculo da folha de dezembro e deve ser conferido junto ao sistema de folha de pagamento.
Como Antecipar o Planejamento do Imposto de Renda da Empresa
Para empresas do Lucro Presumido e do Lucro Real, antecipar o planejamento de IR significa revisar, ainda no segundo semestre, a forma como os lucros serão distribuídos aos sócios. Desde janeiro de 2026, pagamentos de lucros e dividendos que ultrapassem R$ 50.000 em um único mês sofrem retenção de 10% de Imposto de Renda na fonte, sem direito a deduções. Também vale observar que pessoas físicas com rendimentos anuais acima de R$ 600.000 passam a se sujeitar a uma tributação mínima do IR a partir do ano-calendário 2026, com alíquota que cresce progressivamente até 10% para quem recebe mais de R$ 1.200.000 no ano.
Isso significa que a forma e o momento de distribuir lucros aos sócios deixaram de ser um detalhe e passaram a ser uma decisão de planejamento tributário. Diluir a distribuição ao longo dos meses, em vez de concentrar um valor alto em dezembro, pode reduzir a retenção na fonte e evitar impactos na declaração anual dos sócios.
Quais Decisões Tributárias Ainda Podem Ser Tomadas no Segundo Semestre
Ainda dá tempo de revisar a política de pró-labore versus distribuição de lucros dos sócios, planejar o pagamento de PLR aos colaboradores antes do fim do ano (costuma ser dedutível para a empresa e isento de encargos trabalhistas quando bem estruturado) e simular a manutenção ou a mudança de regime tributário para 2027 com base no faturamento projetado.
Empresas do Simples Nacional que vendem para outras empresas também precisam decidir, ainda em 2026, se vale a pena optar pelo modelo híbrido de tributação do consumo, decisão que tem janela própria e prazo curto.
O Que o Contexto de 2026 Traz de Específico
A Janela de Setembro do Simples Nacional
A partir de setembro de 2026, empresas optantes pelo Simples Nacional passam a ter a opção de apurar o IBS e a CBS fora da guia única do DAS, no chamado Simples Nacional híbrido. Essa escolha pode ser vantajosa para negócios que vendem principalmente para outras empresas (B2B), já que fora do regime único é possível aproveitar créditos tributários que não existem dentro do Simples. A opção vale por semestre, é irretratável durante esse período e precisa ser exercida nos meses de setembro e março imediatamente anteriores ao início de cada semestre.
⚠️ Como a decisão de setembro vale para todo o semestre seguinte e não pode ser desfeita no meio do caminho, a análise sobre o custo-benefício da migração deve começar antes, não na própria data limite.
Reforma Tributária: Fase de Testes e Novo Padrão de Notas Fiscais
Desde 2026, o país está na fase de testes do IBS e da CBS, com alíquotas simbólicas de 0,1% e 0,9% para empresas do Lucro Presumido e do Lucro Real, compensadas com tributos federais já existentes. Desde janeiro de 2026, as notas fiscais de serviço eletrônicas seguem um padrão nacional único, e a partir de 2027 os valores de IBS e CBS passam a ser destacados diretamente nas notas fiscais de todas as empresas, inclusive as do Simples Nacional.
Lei 15.270/2025: Nova Tributação de Altas Rendas e Redução do IR
A Lei nº 15.270/2025 trouxe duas mudanças que afetam diretamente o planejamento de fim de ano: a redução do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 7.350 mensais, o que impacta o cálculo do 13º salário dos funcionários, e a nova tributação sobre lucros, dividendos e altas rendas de pessoas físicas, que impacta diretamente a forma como os sócios da empresa devem planejar suas retiradas até dezembro.
Conclusão
O segundo semestre é curto e as decisões tomadas agora, sobre 13º salário, distribuição de lucros, enquadramento tributário e a janela de setembro do Simples Nacional, têm efeito direto no caixa da empresa e no bolso dos sócios. Deixar para depois significa perder opções e, muitas vezes, pagar mais.
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